
Olhos cegos viam um destino que jamais imaginaram.Uma das moiras, de tão surpresa, quase deixa cair a linha que fiava e em um gesto impulsivo e definitivamente incomum, especialmente se considerarmos que ela já tinha alguns milênios de existência, estende a mão para alcançar a mão fria e um tanto calosa de sua irmã. E então, ela notou, que aquela também estava trêmula. Ela não era a única, afinal de contas, a se afligir. Elas eram o tempo, o fiar incessante do tempo. Implacável? Ocasionalmente... Na verdade, na maior parte das vezes. Mas ainda assim tinham uma certa emoção, e este era o segredo mais bem guardado do mundo: elas tinham coração, ainda que ele não falasse com muita freqüência.
Mas aquilo, bom, aquilo era diferente.Por maior que fosse seu tempo de existência, os Deuses não eram como meros mortais, a quem a vida começa e termina antes mesmo que elas pudessem desenvolver algum tipo mais especial de apreço. Eles eram diferentes. Eles estiveram com elas desde... Bom, desde muito tempo. E agora, caberia a elas uma missão que todas preferiam não ter que executar. Um suspiro. E então, a notícia foi absorvida. Ao menos, a experiência lhes vinha em socorro. O que era para ser feito, seria feito. E elas eram as Moiras, afinal de contas. Elas o fariam. O tempo executaria a sua dança. Sua mudança. E para além da sabedoria de muitos dos antigos sábios, os Deuses não ficariam impunes com respeito a esta mudança.
Estrondos, relâmpagos e trovões repercutiam no céu a esmo. Na sala de reuniões do monte Olimpo, Zeus sentia as veias em sua testa inflarem, a sua mão doer pelo fortíssimo soco que dera na bela mesa de mármore, que não trincou apenas porque eraencantada. Um mortal não viveria diante daquela face irada. Ele abraçaria a morte como o mais fiel e devoto amante, apenas para não ver aquela face divina encolerizada àquele ponto. Ele temeria profundamente o que aquele ser pudesse fazer. No entanto, o trio cego, não por ser cego, mas por saber da inevitabilidade daquilo, nem ao menos se moveu.
- Como assim não podemos mais existir? Ficaram loucas?
Os Deuses presentes, embora em silêncio, ecoavam em pensamento as palavras do Pai de quase todos eles. Havia os que se tinham afastados, amedrontados pela proporção de ira que emanava de Zeus. Outros, apenas retorciam ao acaso as mãos,em uma dica de que a Medusa não tinha retornado do Hades e os petrificado, ali mesmo, com o seu olhar.
- Simples assim. Se ninguém acredita em vocês, vocês não existem - retrucaram as Moiras.
- Vocês não têm influência alguma sobre a nossa vida!! Servem apenas para controlar a vida dos mortais, não dos imortais!!!!
- Não controlamos nada. Você sabe perfeitamente que há um poder maior por trás de todos nós, algo que faz com que tudo aconteça. Somos apenas engrenagens, parte de um grande maquinário que faz o mundo girar. Fazemos apenas aquilo que fomos destinadas a fazer - retrucaram.
A palidez de Zeus era impressionante. Nunca ele parecera tanto com as antigas estátuas de mármore que antes adornaram a maravilhosa Grécia e hoje estão confinadas a museus espalhados por todo o mundo. Sentou-se lentamente em seu majestoso trono, arriando como quem leva um golpe mortal que não esperava, uma expressão de espanto e indignação no rosto.
- Zeus, a fé e a crença têm poder. O pensamento e a vontade são capazes de mover montanhas, desde que alguém realmente acredite que possa fazer isso. Os milagres acontecem justamente devido a essa força, que molda o desejo e a vontade das pessoas e os transforma em realidade, quer seja no plano físico ou espiritual. Sempre foi assim. É por isso que alguns mortais conseguem se comunicar com vocês e outros não.
Um silêncio sepulcral reinou por vários minutos na sala de reuniões de Zeus.Todos os deuses estavam perplexos, tentando assimiliar o que ouviram até então. É claro que todos sabiam disso, mas era algo que fazia parte deles, não paravam para pensar a respeito. Como a respiração dos mortais, era algo feito inconsciente e automaticamente. Ninguém pára pra pensar se está respirando ou não, apenas respira! E foi nesse clima que as Moiras se levantaram e lançaram sobre eles as terríveis palavras que temiam ouvir:
- O mundo mudou. Os mortais não mais os cultuam, adoram ou temem. Eram estes sentimentos que eles nutriam por vocês que os tornavam fortes. A partir de hoje, o Monte Olimpo deixará de existir e se tornará nada mais que uma lenda. Nada poderão levar, a não ser a sua coragem e determinação. O Monte Olimpo ficará suspenso no tempo, onde ninguém poderá entrar ou sair, inacessível a todos, imortais ou não.
- Desse momento em diante vocês viverão como mortais, tendo que cuidar de seupróprio sustento. Seus poderes também serão afetados. Cada um poderá manter apenas 3 dons: sua imortalidade e o dom natural que nasceu com vocês e que os caracteriza. O terceiro é o poder de conceder poderes aos mortais. Entretanto,este último só surgirá se o mortal em questão realmente acreditar na existência de vocês e se for seu protegido. E somente poderá ser usado uma vez a cada século.
As Moiras não estavam felizes com o trabalho que estavam realizando. Seus rostos expressavam o desalento e a tristeza que sentiam, mas nada podiam fazer. Não estava em suas mãos nada que pudesse mudar a situação.
- Sentimos muito... Mas infelizmente somos apenas as mensageiras dessa notícia tão desgraçada. Se não tiverem mais nada a dizer, nos retiraremos.
Os deuses, catatônicos, não conseguiam expressar nada, pensar em nada, fazer nada. Estavam literalmente em estado de choque. Apenas Athena conseguiu murmurar uma pergunta, com voz tão baixa que teve de repetir duas vezes para que pudessem escutá-la.
- Essa situação é irremediável?
As moiras se entreolharam, e a mais velha respondeu:
- Criança, esse exílio permanecerá até que as pessoas voltem a crer que vocês existem. Se uma parcela considerável do mundo todo voltar a acreditar nos Deuses Gregos e em tudo o que vocês representam, o Monte Olimpo retornará para esse plano de existência e vocês saberão que é tempo de voltar para casa. Mas ouso dizer que não será em breve... Atena limitou-se a concordar lentamente com a cabeça, raciocinando sobre a resposta. Após mais alguns minutos de silêncio, quando ficou evidente que mais ninguém sepronunciaria, as Moiras fizeram uma última reverência aos Deuses e deixaram a Sala de Reuniões, sem olhar para trás.
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by Aline, Renata e Sandra
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